quarta-feira, 6 de maio de 2015

Entenda a arriscada travessia de imigrantes no Mediterrâneo

Em quase 4 meses, cerca de 2 mil pessoas morreram na viagem.
Conflitos crescentes e ação de traficantes aumentam o êxodo.

Foto divulgada nesta segunda-feira (4) mostra resgate de imigrantes no mar Mediterrâneo neste domingo (3) (Foto: MARINA MILITARE/AFP)

semana, pelo menos 4 embarcações afundaram com imigrantes que faziam a travessia do Mediterrâneo, a partir do norte da África em direção a Europa. Desde 1º de janeiro de 2015, a Organização Internacional de Migração (OIM) estima que cerca de 2 mil pessoas morreram no trajeto, cifra que deve superar de longe os 3.200 no ano passado.
O número ainda é bem maior que as 96 registradas em 2014 até abril, quando o clima ainda não é propício e as águas estão mais agitadas. Segundo a OIM, mais de 21 mil pessoas já empreenderam a viagem em 2015, em comparação às 26 mil do final de abril do ano passado, mas com um saldo de mortes cerca de 15 vezes maior até o momento. Em 2013, foram 700 mortos.
Nos últimos anos, a Europa recebeu a maioria dos refugiados no mundo, que deixam suas terras para escapar principalmente de conflitos, como a guerra civil na Síria e na Líbia, ou de dificuldades econômicas.
De acordo com Alto Commissariado da ONU para Refugiados (Acnur), cerca de 219 mil pessoas cruzaram o mar em busca de uma vida melhor na Europa no ano passado, quase 4 vezes mais pessoas que em 2013, quando 60 mil chegaram do outro lado da travessia.
Em fuga
No ano passado, os eritreus e sírios representaram os maiores grupos étnicos de refugiados que chegaram à Europa. Um dos países mais jovens da África, a Eritreia viveu em guerra civil por décadas e a população sobrevive praticamente com agriculura de subsistência.
Em 4 anos de guerra, mais de 215 mil pessoas morreram na Síria e 11,4 milhões fugiram de suas casas. E a situação piora, segundo o Acnur, que cita as atrocidades cometidas em particular pelo grupo Estado Islâmico (EI).
Em 2014, os sírios lideraram as solicitações de asilo no mundo inteiro, com mais de 149.600 demandas. E a tendência não deve sofrer mudanças, segundo o órgão da ONU. Outro país afetado pelas ações do Estado Islâmico é o Iraque, cujos pedidos de asilo político cresceram 84% em 2014.
Imigrantes resgatados esperam para desembarcar na cidade de Reggio Calabria nesta terça-feira (14) (Foto: Adriana Sapone/AP)Imigrantes resgatados esperam para desembarcar na cidade de Reggio Calabria (Foto: Adriana Sapone/AP)
Negócio milionário
A travessia do Mediterrâneo é feita em botes ou em embarcações superlotadas, sem os mínimos requisitos de segurança, por traficantes de pessoas. A viagem pode custar mais de R$ 10 mil por pessoa, o que torna o negócio altamente lucrativo - uma única embarcação pode render US$ 1 milhão.
Sem garantia de sucesso no pedido de refúgio, muitos imigrantes não conseguem ficar no destino final e são mandados de volta ao país de origem. Mas dificilmente eles desistem e tentam duas, três, quatro vezes, até receberem o asilo oficial.
Menos pior
A carga mais pesada de refugiados recai nos países do sul da Europa, em particular Grécia e Itália, que não são exemplo de economias em bom momento. No entanto, segundo relatos de viajantes, a situação ainda é muito melhor que na África.
A Líbia é atualmente um dos principais portos de saída da África, pela proximidade e pelos conflitos recentes. A União Europeia estuda ações com os países vizinhos para bloquear as rotas utilizadas pelos migrantes.
A chanceler alemã, Angela Merkel, citou a necessidade de lutar "contra o que origina esses fluxos de imigração", com o objetivo de impedir "que pessoas sigam morrendo de maneira tão cruel, na porta da Europa".
Migrantes resgatados no Mediterrâneo chegam nesta terça-feira (14) em Palermo, no sul Itália, em barco da guarda costeira italiana (Foto: AP Photo/Francesco Malavolta)Migrantes resgatados chegam à Itália, em barco da guarda costeira (Foto: AP Photo/Francesco Malavolta)
Combate
A imigração é um tema polêmico na Europa, principalmente com o avanço de partidos de extrema direita, que defendem leis anti-imigração usando a crise econômica como argumento para ganhar mais votos.
As autoridades europeias lançaram várias missões para evitar mortes de imigrantes no Mediterrâneo. A mais importante delas, a Mare Nostrum, durou de outubro de 2013 até o final de 2014, dando lugar a outra menor, a Triton, e mais restrita a águas europeias.
A diminuição do socorro pode ser um dos motivos do aumento de mortes. Agora as autoridades europeias correm para criar uma política que represente uma reação mais humana ao êxodo de pessoas, sem piorar a crise estimulando mais pessoas a partirem.
Desastres recentes
Outubro de 2013: cerca de 360 pessoas morreram em naufrágio próximo à ilha de Lampedusa, Itália.
Setembro de 2014: pelo menos 300 imigrantes naufragaram em Malta, quando traficantes fizeram um "assassinato em massa" depois que as pessoas se recusaram a mudar para uma embarcação menor.
Fevereiro de 2015: pelo menos 300 imigrantes teriam se afogado quando 4 botes entraram em apuros depois de deixarem a Costa da Líbia com condições climáticas ruins.
Abril de 2015: cerca de 400 imigrantes se afogaram quando o barco deles virou na costa da Líbia.
Abril de 2015: cerca de 700 imigrantes teriam se afogado após o barco ter virado próximo à Lampedusa.
Migrantes esperam para desembarcar de um navio da Guarda Costeira italiana depois de serem resgatados no Mediterrâneo neste sábado (Foto: AP Photo/Francesco Malavolta)Migrantes esperam para desembarcar depois de serem resgatados (Foto: AP Photo/Francesco Malavolta)

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